Espelho meu

Obesa, precisava de mudar a sua imagem, no imediato, para ontem. Entrou numa casa-de-espelhos e olhou em volta, vendo-se distorcida em vítreas superfícies. Pegou na melhor imagem e saiu correndo para o jantar agendado. Bizarria, parecia a oposição de dois triângulos equiláteros mas, o melhor, é que a sua cintura ficava reduzida a uma fina lâmina.

Alice, a anciã Alice no Lar de Terceira Idade, já não quer espelhos no quarto. O Coelho Branco, depois de velho, virou tarado, e aprendeu a atravessar o espelho para a sodomizar, segurando um relógio e gemendo: "Ai! Ai! Ai! Venho tarde demais?".

Olhou-se no espelho e odiou aquela prega de gordura na barriga, sob o gibão. Passou a comer pouco, ou antes, a não comer – tudo o que ingeria, vomitava em seguida. Foi assim, magro e bulímico, que sobreviveu a inúmeras tentativas de envenenamento no seio dos Bórgias.

textos
José Eduardo Lopes
João Ventura     Luís N.